A decisão de sábado (10) da Copa América terá um gosto especial para o técnico Tite. Estudioso aplicado do futebol argentino, ele tentará ser campeão pela primeira vez em cima do país que teve forte influência em sua formação.
Tite assumiu a seleção brasileira em 2016. Em 2014, já campeão da Libertadores e do Mundial com o Corinthians, ele reservou na agenda um período de cinco dias em Buenos Aires para percorrer livrarias e conhecer treinamentos em busca de novas ideias de trabalho.
Em um desses encontros, almoçou e conversou por quatro horas com o "Mister Libertadores" Carlos Bianchi, então treinador do Boca Juniors, de quem é fã declarado e com quem mantém contato até hoje. Nesta mesma viagem, viu de perto o San Lorenzo de "Patón" Bauza ganhar a primeira Libertadores. Enquanto mais de 50.000 fanáticos enlouqueciam no Nuevo Gasómetro, Tite, caderno em mão, espremido, anotava tudo o que podia.
Tempo e espaço
A influência argentina no trabalho de Tite tem duas razões. A primeira é a proximidade geográfica e cultural do seu Rio Grande do Sul natal com o país vizinho. Segundo: a linha do tempo. Tite foi jogador profissional de 1978 a 1989, justamente o auge do futebol argentino com os títulos das Copas do Mundo de 1978 e 1986 - e o vice sairia um ano depois, em 1990, no Mundial da Itália.
Tite foi contemporâneo e bebeu das melhores fontes de pensamento do futebol argentino, o "menottismo" e o "bilardismo", pelas obras de César Luis Menotti, técnico da Argentina em 1978 e 1982, e Carlos Salvador Bilardo, em 1986 e 1990. Revirar o arquivo de entrevistas de Tite é encontrar elogios à Argentina e a Menotti.
Em 2011, o hoje treinador do Brasil se declarou um "menottista", um defensor de um futebol mais equilibrado no qual o resultado é consequência, não a razão principal.
Carrasco em clubes
Se o sábado terá o primeiro Brasil x Argentina de Tite em uma final por seleções, o mesmo não pode ser dito na sua vida de treinador de clubes.
Dos três títulos sul-americanos no currículo, dois foram levantados em cima de times argentinos de camisas pesadas: o Estudiantes de La Plata (Sul-Americana 2008, pelo Inter) e o Boca Juniors (Libertadores 2012, com o invicto Corinthians).
Curioso: sua relação com atletas do país não fluiu. Jamais teve empatia com Tevez, D'Alessandro ou Burrito Martínez, para ficar só em três de seus comandados. Muitos dos seus comandados de então dizem que foi Guiñazú, o volante do Inter, o argentino com quem se deu melhor.
Por fim, a ligação de Tite com Buenos Aires é bem mais profunda que o futebol. Quando está na capital portenha, ele obrigatoriamente passa pela igreja Nossa Senhora do Pilar, no bairro da Recoleta, como conta sua biografia, escrita pela jornalista Camila Mattoso.
Bielsa, Sampaoli e Crespo
A admiração de Tite pelos colegas argentinos é bastante destacada no país vizinho. Para os argentinos, "Tité" (como grafam com erro até hoje), de tão cordial, é um excelente exemplo de como as duas potências podem unir forças em vez de alimentar uma rivalidade exagerada que muitas vezes deixa de ter sentido.
Tite já foi fotografado em animadas conversas com Jorge Sampaoli e "Loco" Bielsa em eventos da CBF no Rio de Janeiro. E no mês passado, quando a seleção treinou no CT do São Paulo, reservou um tempo para conversar com Hernán Crespo.
O resultado da decisão de sábado não vai interferir na avaliação sempre exigente do público e da imprensa argentina: para todos, Tite é um técnico à altura do histórico "scratch", como ainda se referem à equipe nacional brasileira. O mesmo olhar não era destinado a antecessores recentes como Dunga, Mano Menezes e Luis Felipe Scolari.
Rival de sábado pela Copa América, Argentina já foi "escola" para Tite - UOL Esporte
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